Uma vitória.
Denys Almeida
23:48hr. O estádio praticamente vazio depois de um 1x0 insosso. Nas ruas o cheiro das cores do time vencedor era intoxicante, gritos e barulhos vistos de todos os lados. Depois da tristeza, aos perdedores sobrava o caminho de volta para casa com certo temor nos ossos, muito menos pelos perigos dos cantos escuros, mais por aquilo que se via por todos os lados.
João passou o zíper do casaco preto por cima da sua camisa velha, mas ironicamente vencedora, enquanto Larissa jogava outra por cima da sua. No frio daquela quase madrugada as medidas de segurança eram até bem-vindas.
“Vamos?” – João olhou sem muita vontade para a mulher agora com sua camisa amarelo claro.
“Vai, não fica assim, nós dois sabemos o quanto aquele filho da puta do juiz roubou nesse jogo.” – Ela sorria.
“É, filha da puta.”
Começaram a rodear o estádio por uma ladeira a passos curtos e silenciosos. Nenhum dos dois falou nada até a parada de ônibus mais próxima. Os cantos dos torcedores vencedores já haviam sumido. Um carro às vezes, um cachorro ao longe, fora isso era até estranho acreditar que pouco tempo antes aquelas ruas era uma colmeia zumbindo. Olhando de um lado para outro só era possível ver alguns mendigos deitados em cantos, vez ou outra um pequeno grupo de pessoas passava por uma rua mais longe.
“Tá demorando!” – Larissa andava de um lado para o outro esfregando as mãos esticando a cabeça na direção de onde veria vir o ônibus. Puxou a manga do braço; 00:27. – “Só espero que não tenha passado o último, falei pra gente não demorar tanto lá em cima”.
“Eles passam até a uma da manhã, daqui a pouco vem.” – João puxou Larissa pelo braço, aproximando seus rostos a poucos centímetros, sorriu e lhe beijou com força, empolgado com o isolamento dos dois.
“Que bonito!” – Os dois se largaram por susto, olhando na direção de onde vinha a voz. A pouco mais de uns dez metros um grupo de cinco rapazes sorria em sarcasmo. A primeira coisa que os dois perceberam, com medo, foram as cores das camisas deles. Abraçaram-se e ficaram de costas para o grupo que se aproximou deixando claro que as zoações não iriam parar tão facilmente.
“Vão procurar um motel, porra, tão sem grana que vai na rua mesmo?” – Falou alto um dos que vinha mais atrás, fazendo com que todos rissem alto. João deu um passo mais para longe, puxando Larissa junto de si. Ela segurava o casaco dele com força, a mão trêmula, fazendo com que a abertura do zíper baixasse um pouco.
“Opa! Que porra é essa? – Um deles se aproximou com passos largos dessa vez, apontando para a blusa que João levava por baixo do casaco – “Tem um viadinho aqui porra”.
O grupo se cercou os dois a fim de constatarem o mesmo que o amigo. A satisfação clara em cada rosto. “Puta que pariu, é mesmo!”. João puxou sua namorada, ficando a sua frente e olhou seriamente para os cinco. Nunca havia brigado por causa de futebol, mas a história não era muito rara.
“Que foi viadinho? Tá olhando o que, caralho?”
“Olha, não quero confusão, já basta a derrota, beleza?” – Apesar da voz firme, por dentro João sentia um grande medo, menos por si, mais por Larissa.
“Vai tomar no cu, perdeu mesmo, timinho de merda.” – Um deles, aparentemente o mais velho, disse olhando para João, ainda que estivesse falando mesmo é com os outros do seu grupo. – “Vai fazer alguma coisa por acaso?”.
Larissa olhava para a rua com esperança de ver um ônibus vindo. Nada. João continuava encarando os cinco, mas preferiu se manter calado.
“Agora fica calado, é? Não quer se mostrar pra putinha aí? Bora!” – O grupo se abriu e o mais velho deu dois passos para trás, claramente em um convite. Era impossível negar a raiva no rosto de João e tudo que ele mais queria no momento era poder soca-los. Sentiu as mãos de Larissa fecharem-se no seu casaco pelas costas, olhou novamente para o grupo e engoliu a própria vontade.
“Não.” – Disse com em um tom mais baixo.
“Não?” – Todos em volta gargalharam. – “Não é o caralho!” – O mais velho correu na direção de João acertando um murro no lado do seu rosto, fazendo-o cair em uma perna. Larissa gritava enquanto seu namorado levava um chute que o atingiu no braço esquerdo. O grupo se divertia, gritando para o lutador vários incentivos. João se levantou, mas manteve-se apenas ereto na frente de Larissa, que chorava. Deu alguns passos à frente antes de levar mais dois socos que o fizeram cambalear para trás.
“Porra, esse filho da puta não se mexe, que bicha!”
Na mesma hora em que outro rapaz do grupo falou, em uma rua próxima começou a soar um sirene de polícia, o som cada vez mais crescente.
“Merda, bora sair daqui!” – Os cinco correram na direção oposta, tão empolgados ao sair quanto estavam ao chegar. Larissa se correu para frente de João, tocando todo seu corpo a procura de ferimentos mais graves. Percebeu que as mãos dele tremiam com força.
“Eu estou bem!” – Disse João com raiva.
“Tem certeza?” – Lágrimas ainda corriam do seu rosto.
“Sim.” – Sentou-se no banco do ponto de ônibus.
Ambos ficaram em silêncio. A garota se agarrava ao braço dele como se nunca mais fosse largar. Alguns minutos depois um ônibus praticamente vazio veio e levou os dois.
Sentaram-se em um banco na parte de trás, ainda calados. João olhando fixamente o mundo que corria pela janela, Larissa segurando-o com mais força.
“Ei.” – Ela disse baixinho.
João continuou calado.
“Ei… obrigada”. – Ela encostou a boca no ombro dele.
João virou para ela.
““Obrigada”? Pelo o que?! Fui um covarde ali!” – Respondeu quase gritando, chamando atenção do cobrador que ficou observando os dois.
“Não, não foi. Eu sei você não fez nada pensando em mim.” – Larissa agora parecia calma, sua voz tinha um gosto doce.
João ficou calado por alguns segundos até desabar o rosto no ombro dela, abraçando-a.
“Obrigada”.